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Resistências caem quando o lucro aparece*


Especialista em economia ambiental acredita que novos modelos de gestão empresarial
começam a ganhar estrutura dando consistência à idéia de desenvolvimento sustentável


Por Ricardo Abramovay
10/11/2008


Uma nova economia está nascendo. Não suprime a empresa privada, os interesses individuais,
a motivação do lucro, o mercado ou as grandes corporações. Ainda assim, cuida de repensar
o propósito e o funcionamento dos sistemas produtivos modernos. O foco é a construção de uma
relação inédita entre sociedade e natureza e, ao mesmo tempo, entre economia e ética. Não se
trata apenas de denúncia ou protesto, e sim de uma explosão criativa que começa a oferecer
expressão prática à idéia de que é possível produzir e viver de maneira diferente daquela que
marca o apogeu da civilização ocidental.

Os conhecimentos e as técnicas disponíveis, bem como os movimentos sociais que respondem pelas
mudanças nos comportamentos de empresas e dos governos, permitem anunciar, ainda que timidamente,
a emergência de uma economia sustentável. Não há qualquer garantia quanto ao desfecho desse processo,
cujos componentes não se articulam de maneira organicamente coordenada. Mas a diversidade social de
suas manifestações lhe imprime uma força impressionante.

Fundado em 1974, o Worldwatch Institute é pioneiro no estudo de temas ambientais globais. O relatório
comemorativo dos 25 anos de publicações é uma espécie de síntese do estado da arte no que se refere às
inovações para uma economia sustentável. O livro, com catorze capítulos, escritos em linguagem acessível
ao leitor não especialista, vai da energia à gestão de recursos comuns, passando por consumo sustentável
e gestão das águas. O ponto de partida é a constatação de que a maneira de medir a riqueza nas sociedades
contemporâneas está completamente ultrapassada. O tema tem sido abordado por José Eli da Veiga e Marcelo
Néri em colunas de opinião do Valor. John Talbert, diretor do Programa de Indicadores de Sustentabilidade
do Redefining Progress e um dos criadores das técnicas de cálculo de pegada ecológica
(www.myfootprint.org/en) mostra a existência de um consenso entre “pesquisadores, governos e
sociedade civil sobre a necessidade de uma rápida transição para um sistema econômico no qual o progresso
seja medido pela melhoria do bem estar, mais que pela expansão da escala e do escopo das atividades
econômicas de mercado.

Precisamos medir o progresso econômico pelo quão rapidamente seremos capazes de construir uma plataforma
de energia renovável, alcançar as necessidades humanas básicas, desencorajar o desperdício no consumo e
investir em melhorar (e não em degradar) os capitais cultural e natural”. Apesar da distância que nos
separa de um substituto do PIB, já há sinais que mostram o contraste entre bem-estar real medidas
convencionais de riqueza.

Os US$ 10,8 trilhões do PIB americano de 2004 reduzem-se a US$ 4,4 trilhões quando se aplica o “indicador
de progresso genuíno”, que inclui os benefícios de atividades não mercantis, como o trabalho voluntário,
e se desconta a extrema desigualdade e a degradação ambiental, pois não fazem genuinamente parte daquilo
que oferece bem-estar à sociedade.

No plano microeconômico, há também um forte movimento para alterar as medidas de eficiência empresarial.
Talbert lista, nesse sentido, cinco objetivos básicos: certificação de produtos, eco-eficiência, bem-estar
no ambiente de trabalho, vitalidade comunitária e desperdício zero. Desperdício zero pode parecer exagero
fundamentalista. Longe disso. Trata-se de um dos mais notáveis traços do que L. Hunter Lovins, autora do
capítulo “Repensar a produção”, chama de sexta onda da revolução industrial e que teve início em meados
dos anos 1990. Ela escreveu, há quase dez anos “Capitalismo Natural”, com Paul Hawkens e Amory Lovins
(Cultrix - Amaná Key). Agora ela atualiza o tema, mostrando o poder e a profusão das técnicas baseadas
na biomimética.

O movimento nessa direção já vem dos anos 1970, quando o arquiteto suíço Walter Stahel, na direção do
Product-Life Institute de Zurique, criou a expressão “de berço a berço” (”cradle to cradle”). A idéia
central não está em reciclar como meio de atenuar os danos ambientais, mas em conceber produtos agrícolas
e industriais que integrem o próprio metabolismo natural, que tenham o poder de fortalecer e até regenerar
os ecossistemas.

Como a natureza levaria isso adiante? É uma verdadeira consigna que organiza o que de mais avançado se faz
hoje em termos de inovação industrial. Os relatos de ganhos empresariais em torno dessas novas tecnologias
mostram que elas embutem um potencial imenso. Suas repercussões no design, no planejamento urbano e no uso
da energia são extraordinárias. Essa nova onda de inovações ajuda a enfrentar o que Christopher Flavin,
pesquisador do WWI, chama de desafio central de nosso tempo: a descarbonização da matriz energética das
economias contemporâneas. Oitenta por cento da energia que move o sistema econômico mundial são de origem
fóssil. Desde 1950, as emissões de carbono derivadas dessa energia fóssil aumentaram cinco vezes. Só de
1990 para cá o aumento foi de 30%. Os interesses e a inércia institucional em torno desses padrões
produtivos são poderosíssimos.

Mas há, ao menos, dois sinais importantes de mudança. O primeiro é uma tomada de consciência mais ou menos
generalizada a respeito do desperdício de energia. O segundo é a evidência de que investimentos privados
em energias alternativas são altamente rentáveis: nos últimos cinco anos, a manufatura de turbinas a vento
cresceu 17% anualmente e a de energia solar, 46%. No Vale do Silício, uma economia pós- pontocom emerge em
torno das energias alternativas. Um dos maiores riscos está no contraste entre o que essas tecnologias
alternativas prometem e a tendência de muitos governos a concentrar esforços no petróleo e, pior, no carvão.

Essas inovações não abolem uma questão central relacionada ao propósito e ao funcionamento das economias
modernas: seus estilos de vida e, antes de tudo, seus padrões de consumo. A abundância anunciada pelo
capitalismo natural e a biomimética têm como contrapartida um movimento mais geral, em que os bens e
os serviços que se obtêm no mercado não são finalidades, mas meios pelos quais os indivíduos melhoram
seu bem-estar e sua inserção social.

A sustentabilidade supõe um passo que a desigualdade social torna ainda mais difícil: a construção de
uma economia da suficiência, que exprima relação inteligente e parcimoniosa entre sociedade e natureza.
Ninguém sabe de que maneira chegaremos lá. A grande virtude do trabalho do Worldwatch Institute é mostrar
que começam a se formar condições materiais e institucionais que dão consistência a essa grande utopia de
nosso tempo, que é o desenvolvimento sustentável.

Ricardo Abramovay é professor titular do Departamento de Economia da FEA/USP, coordenador de seu Núcleo de
Economia Socioambiental (NESA) e pesquisador do CNPq *Artigo publicado originalmente no Jornal Valor Econômico.

Data: 10/11/2008

Fonte: Akatu.org.br